22 abril, 2020

O Diário de Myriam (Myriam Rawick & Philippe Lobjois)


Por muitas vezes, estamos tão focados em nós mesmos, que esquecemos que existem mais pessoas no mundo em situações muito mais precárias que as nossas e, que estão literalmente vivendo um caos. Guerras acabam com os sonhos, moradas e a paz, que um dia, o país teve. Colocam um ponto final em sonhos, na infância e em uma vida tão pouco vivida. Destroem monumentos históricos, a esperança e a felicidade.

A guerra na Síria teve início por meados de março de 2011 quando pessoas insatisfeitas e incomodadas com o governo de Bashar al-Assad, começaram protestos pacíficos nas ruas e foram recebidos de forma violenta e brutal, dando início a uma guerra civil. O que era só uma insatisfação contra o governo atual, acabou desencadeando uma guerra pelo poder! Todos começaram atacar uns aos outros e atacar de todas as formas o ditador. Tudo isso piorou quando o Estado Islâmico entrou no confronto. Mais de 500 mil pessoas já foram mortas, sendo mais da metade, Civis! É um número muito chocante e assustador!

"Foi ali, pela primeira vez, que entendi o que significava guerra.
 A guerra era minha infância destruída sobre essas ruínas e fechada em uma caixinha."


Myriam Rawick vivia feliz ao lado de sua família na cidade de Alepo, uma das maiores cidades Síria, que passou de um cenário cultural para uma enorme cena de guerra. Foi no meio desse conflito que surgiu o comovente “O Diário de Myriam”. Escrito em colaboração com o jornalista Francês Phillipe Lobjois, ambos trabalharam juntos para enriquecer as memórias que ela coletou em seu diário. Ela era apenas uma criança de seis anos quando começou a registrar o seu dia a dia. É nítido como tudo vai mudando e podemos perceber o quanto a guerra só vai piorando aos poucos, no começo, não passou na cabeça de ninguém que uma guerra fosse acontecer, afinal, eram só protestos pacíficos que não causavam mal a ninguém, mas, infelizmente, não estavam cientes do caos que estava por vim.

Com toda a certeza foi uma das melhores leituras de 2020. É incrível como o dia a dia de uma pequena criança, que foi crescendo ao decorrer da história, me fez refletir tanto. Em determinadas datas, inclusive a do meu aniversário, eu estava comemorando e me divertindo, enquanto as pessoas da Síria, inclusive a própria Myriam, estavam tendo suas casas bombardeadas e sofrendo ataques nas ruas.

Enquanto eu lia esse livro, em vários momentos senti lágrimas brotarem nos olhos. De uma forma bem sensível, O Diário de Myriam trata da guerra na Síria de uma maneira que eu nunca imaginei. Refleti inúmeras vezes sobre o que é coletividade, sobre como é importante a união das pessoas e como isso está em falta no nosso mundo atual.


É inegável que, ao ler a história de Myriam, uma lembrança de Anne Frank vem a tona. No caso de Myriam, ela vê o seu mundo e seus sonhos serem totalmente mudados em detrimento de uma guerra que ela sequer entendia. Já na história de Anne, ela tentou sobreviver à guerra que se passava no momento da eclosão do nazismo alemão, motivado por Hitler, tentando se esconder de toda maldade e horrores que aconteciam. Com décadas de diferença separando-as, essas meninas ainda acreditavam na mesma coisa: no poder da palavra, a vontade de viver em um mundo sem guerra, mais pacífico e a esperança de dias melhores.

Antes mesmo de iniciar essa leitura, já me veio instantaneamente na cabeça o livro “A Guerra que Salvou a Minha Vida” e “A Guerra que me Ensinou a Viver”. As histórias também se passam na guerra, o diferencial é que: uma história se passa em alepo, na Síria, em meio a uma guerra civil, sendo completamente real e vivenciada por Myriam. Sendo que a outra é ficcional e iremos acompanhar a jornada de superação de Ada, que nasceu com seu pé torto e sofre constantemente com isso. Porém ambas as histórias nós passam aprendizados que iremos levar para sempre e com certeza nos marcará de alguma forma. 

“Adorava minha cidade, meu bairro. Gostava de sentir o calor de suas pedras polidas pelo tempo, de ouvir o canto dos almuadens, de me proteger a sombra das igrejas. Eu era feliz, leve. E não imaginava que a vida pudesse ser de outra forma.”


Essa é uma leitura necessária que eu recomendo para todos! Para crianças, adolescentes, adultos e Idosos. Seria muito interessante estimular as crianças a lerem este livro e, quando elas terminarem a leitura, verem elas debatendo o que tomaram de aprendizado sobre a história de Myriam Rawick. A leitura é bem rápida, por ser contada através de um diário, a escrita acaba sendo bem leve, rápida e emocionante.

Eu tive uma experiência de leitura sensacional! realizei a leitura desse livro em uma leitura coletiva organizada pela Nati Amend. No grupo do WhatsApp, no qual nos usamos para discutir a respeito da história, dividimos muitas reflexões que essa obra nos causou.Ver outras pessoas também se emocionando com essa leitura, grifando frases, debatendo os aprendizados... tudo isso fez com que minha experiência de leitura se tornasse única e incrível! Obrigado por isso, Nati!

“Ao me virar, vi um pedaço de rua. Não reconheci na hora, mas fiquei olhando para ela por um bom tempo, como se estivesse sido atraído misteriosamente atraída. Depois de alguns minutos, perguntei a mamãe: ‘Era aqui?’. Ela entendeu imediatamente do que eu estava falando. Ela assentiu com a cabeça e me estendeu a mão. Era a nossa rua."


Este livro faz parte do selo Crânio da DarkSide Books. A proposta desse selo é publicar apenas histórias reais e didáticas. Diferente da maioria, a edição é em brochura, mas isso não faz tanta diferença no final, pois a qualidade e a edição continuam impecáveis! A folha de guarda possui várias flores, um prefácio para a edição brasileira, as cartas enviadas pelas crianças para o Joca (jornal para jovens e crianças do Brasil), um prólogo, uma introdução, posfácio e no final, imagens da cidade de alepo, destruída nas ruínas.

Outra coisa que eu achei bastante interessante sobre esse livro é que a editora, DarkSide Books, criou um site exclusivo para esse livro, no qual é possível encontrar fotos, notícias, uma prévia do livro e até uma reportagem que o programa Fantástico fez, e também contando como podemos ajudar as refugiadas da Síria e um pouco de suas histórias. Eu recomendo e vale muito a pena ir conferir.


Espero de verdade que alguém tenha se interessado em ler esse livro. É uma história que que eu queria que todo mundo tivesse a oportunidade de conhecer. E se  alguém já leu, me conta nos comentários! Vou adorar saber. Gostaram das fotos? E do post? Espero que sim <3

Com amor, L 

AO INFINITO E ALÉM

20 comentários:

  1. Esse foi de longe um dos livros mais emocionantes que já li na vida. É tão triste pensar que muitas vezes não damos valor a algo tão significativo: a paz! DarkSide acertou muito em trazer esse livro para o Brasilk!
    E suas fotos estão lindas, migo <3

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    1. Esse é com certeza um livro que todos deveriam ler! Muito Obrigado pelo carinho, Lu!

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  2. Histórias que envolvem guerras são sempre tristes, ainda mais quando narradas por uma criança. Uma coisa que me chamou muito a atenção no Diário de Anne Frank e possivelmente também neste livro é a capacidade narrativa - Trabalho com crianças e sei que a maioria não consegue escrever muita coisa, mesmo as mais velhas (onze, doze anos) e fico me questionando: Seriam as crianças como Anne Frank de alguma forma predestinadas a escrever e tentar tocar a alguém? Ou será que são apenas crianças que acabam se desenvolvendo mais devido às situações? Ou ainda, seria a nossa educação tão precária? Não sei, são algumas provocações que me surgem em leituras assim...
    Quanto ao Diário de Myriam, ele já está na minha lista desde que vi um comentário sobre ele em algum lugar.
    Abraços

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    1. Os questionamentos que você levantou são muito interessantes!

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  3. Com certeza é uma leitura tocante, histórias de guerra já são tristes por so só, narradas por uma criança deve ser de partir o coração. Muitas vezes reclamamos de tanta coisa, temos que aprender a dar valor à vida que temos, existem tantas pessoas com uma realidade tão cruel quanto a de Myriam, vivendo em meio a guerras, que nossos problemas se tornam pequenos quando comparados a essa realidade dura. As fotos estão lindas e delicadas, adorei 💐

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    1. É uma leitura muito triste porém necessária!
      Muito Obrigado pelo carinho, Patricia! <3

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  4. Fiquei extremamente comovido com essa obra, é uma leitura sofrida por parte da personagem que com pouca idade passou pelos horrores da guerra. Mas o que deu para perceber foi que ela escreveu esse livro, com o verdadeiro objetivo de ganhar dinheiro, não compartilhar suas experiências.

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    1. Acho que a intenção dela não era essa, mas obrigado por compartilhar sua experiência de leitura.

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  5. Olá!
    Guerras... infelizmente ainda vemos muitos conflitos armados causando muito sofrimento principalmente para a população local. Com tudo isso, as crianças sempre sentem um peso maior, pois tem sua formação e futuro prejudicados e, se não forem muito fortes, acabam por perder suas vidas.

    Abraços!!

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    1. Guerras sempre foram um assunto muito triste e deliciado :(

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  6. Sou apaixonada pelas suas fotos!!!!
    Em relação ao livro li o ano passado para o clube de leitura, concordo que é uma leitura incrível, triste, sensível e necessária.
    Abraços

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  7. Eu quero dizer que amei cada uma das suas fotos, elas são simples e elegantes ao mesmo tempo. Eu não li esse diário, recentemente, li Anne Frank, confesso que fiquei decepcionada por não ter me emocionado. Então, lembrei da Myriam, espero conseguir me emocionar com esse.

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  8. Li um post sobre esse livro há um tempinho atrás e imediatamente entrou na minha lista de leituras. Mas como é uma lista nem um pouco pequena, acabou ficando por lá, esquecido. Terminei o seu post com vontade de ler mas ainda vai ficar pra depois porque tenho evitado fazer compras nesse período que estamos vivendo. Como você falou, eu também lembrei de Anne Frank quando ouvi falar desse livro. O que só é mais um motivo para querer ler, porque o Diário de Anne Frank talvez seja o livro que mais vezes eu li na vida e sempre me emociona.

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  9. Oi, amigo! Ué arraso de postagem, hein!? Parabéns? Bom, sobre o livro, li no ano passado, mas não me foi a experiência literária que eu esperava, admito. Sabe, eu não consegui me conectar com a Myriam através de seus diário e de suas escritas. Mas veja bem, não estou questionando ou colocando em cheque os horrores da guerra. De forma alguma! Apenas não senti pela narrativa dela sobre o ocorrido o que senti ao ler "O Diário de Anne Frank". Me compreende? O que não significa que não tenha gostado do seu trabalho! Pelo contrário! A-do-ro estar aqui e interagir com suas Leituras, suas resenhas e belas fotos! Um beijo!

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  10. Me lembra um pouco o diário de Anne Frank. Acho interessante ver a guerra através dos olhos de uma criança. Me lembra de o O império do sol de Ballard que é autobiográfico e virou filme pelas mãos de Steven Spielberg. Vale a pena ler o livro e ver o filme. Mas se prepare porque desidrata também.

    bacio

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